"Cultura é pensamento e reflexão. Pensar é o contrário de obedecer."
"A arte é o antídoto contra a barbárie"
"Pensar é um ato que põe em dúvida a estrutura de tudo"
"Todo homem que em si não traga música
E a quem não toquem doces sons concordes,
É de traições, pilhagens, armadilhas
Seu espírito vive em noite obscura
Seus afetos são negros como o Érebo:
Não se confie em homem tal..."
Shakespeare - "O Mercador de Veneza"
"Há uma certa delicadeza de alma que só a leitura propicia. Sem livros, a vida é selvagem, bruta, dura. Não há transcendência possível. Não há a humanidade necessária." - Cíntia Moscovich - Escritora e jornalista gaúcha
Escrito por Ana Bolena às 17h59
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O maravilhoso Top Cine (Av. Paulista, 854 - São Paulo - Telefone: 11-287-3761) está reprisando quase todos os filmes do François Truffaut, meu muso cinematográfico. Nesta mostra, os fãs do Truffa poderão ver e rever o chamado "Ciclo Antoine Doinel" - filmes protagonizados pelo personagem criado à imagem e semelhança do diretor, personificado pelo ator Jean-Pierre Léaud - e acompanhar as tentativas desastradas (e engraçadíssimas) do protagonista em manter o casamento e um emprego decente. Faltou na seqüência o curta "Antoine e Collete", este pequenino clássico sobre o amor juvenil. Mas não importa. Esta seleção do Top Cine já é suficiente para nos revelar a arte de Truffaut em tornar sublimes os temas mais descompromissados.
OS INCOMPREENDIDOS (Les Quatre Cent Coups) - França, 1959. Com Jean-Pierre Léaud, Claire Maurier e Albert Rémy. Aqui nos surprrendemos com a espontaneidade e o talento de Jean Pierre Léaud, nos seus quatorze anos, incorporando pela primeira vez Antoine Doinel, menino de vida problemática e espírito rebelde. Será nas ruas de Paris que o pobre Doinel sofrerá os "400 golpes" do título original. Este clássico da Nouvelle Vague foi o grande vencedor do Festival de Cannes de 1959 e Léaud tornou-se a coqueluche do momento. Assista o filme e veja o porquê.

BEIJOS PROIBIDOS (Baisers Volés) - França, 1968. Com Jean-Pierre Léaud, Claude Jade, Daniel Ceccaldi e Claire Duhamel. - Rodado no turbulento ano de 1968, "Beijos Proibidos" superou as expectativas e tornou-se um sucesso comercial estrondoso, recuperando financeiramente a produtora do Truffaut, a "Films do Carrosse". Curioso é que "Beijos Proibidos" não contou com a dedicação total do diretor, que por esta época estava mais preocupado com o destino da Cinemateca Francesa do que com os rumos do seu próprio trabalho. (Observem no início do filme uma tomada das portas do Pallais de Chaillot e a seguinte inscrição: "Este filme é dedicado à Cinemateca Francesa de Henri Langlois" - trata-se de uma menção aos episódios de 1968. Para uma pálida idéia do que foi aquilo, assista "Os Sonhadores", de Bernardo Bertolucci). Em "Beijos Proibidos", Antoine Doinel é expulso do exército e decide procurar sua namorada, com quem mantinha correspondência. Enquanto tenta levar a moça para o altar, Doinel arranja casos fugazes e empregos mais fugazes ainda.....

DOMICÍLIO CONJUGAL (Domicile Conjugal) - França, 1970 - Com Jean-Pierre Léaud, Claude Jade, Hiroko Berghauer, Daniel Ceccaldi - Este filme não ficou do agrado do Truffaut, pois os trabalhos transcorreram a toque-de-caixa. Apesar das dificuldades, "Domicilio..." acabou se tornando uma historia tão divertida como a de "Beijos Proibidos"! O clima leve e primaveril teve que ser obtido em pleno inverno, para o martírio dos atores - Claude Jade e Léaud tiritaram de frio em longas tomadas pelas ruas de Paris! Tudo isso para nos contar como Antoine Doinel se virou para garantir a vida de casado e sua saga (eterna) em busca do emprego para sustentar não só a mulher, mas o filho a caminho e....uma amante japonesa!
AMOR EM FUGA (L'Amour en Fuite) - França, 1979 - Com Jean-Pierre Léaud, Claude Jade, Marie-France Pisier e Dorothée - Este eu considero o pior dos filmes do Truffaut. Após o fracasso de "O Quarto Verde", o caminho mais fácil para a "Films du Carrosse" sair do vermelho foi ressucitar Antoine Doinel, personagem que Truffaut prometera não mais levar às telas. Deveria ter cumprido a promessa.... O filme é quase todo construído com cenas dos filmes anteriores do ciclo, inseridas aqui para ilustrar os inúmeros flash-backs que deixam a narrativa bem capenga. Vale assistí-lo apenas para sabermos afinal que fim levou Doinel e suas indefinições na vida. (OK, e também por algumas boas sacadas...) Em "Amor em Fuga", Doinel é o primeiro a se divorciar na vigência de uma nova lei francesa, tornando-se destaque na mídia. Alphonse, seu filho, já tem uns sete anos, e toca violino como a mãe. Vai ser por causa de Alphonse que Doinel reencontra Collete, sua primeira paixão. Daí o pretexto para os tais flash-backs. (E é por isso que deveriam passar o "Antoine e Collete"... A Collete sempre volta, é um caso mal resolvido do protagonista....).

Aqui, a fonte para as informações deste post: o livro "François Truffaut: uma biografia", de Antoine Baecque e Serge Toubiana, Editora Record. Refúgio e fortaleza para os fãs.
E aqui, Truffaut ensina Jean-Pierre Léaud a fazer uma das cenas mais engraçadas de "Domicílio Conjugal", quando Doinel precisa se adaptar aos costumes de sua amante japonesa................
 
Um abraço a todos!
Escrito por Ana Bolena às 11h46
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