Da série: "Eu queria ser...."
Episódio de hoje: Curador de museu

"Lembro-me com carinho das incursões especiais que fiz quando era diretor do Museu Metropolitano de Arte de Nova York, em depósitos a que poucos forasteiros tiveram permissão de acesso. Certa vez os soviéticos mandaram sair os visitantes quando cheguei - nada poderia fzê-los mudar de idéia. É também bastante proveitoso ir na companhia de um profissional famoso.
No Hermitage ninguém jamais fora levado aos depósitos. Certa vez tive total acesso à mais fechada dessas salas. O motivo foi que tive uma arma secreta - em Jaqueline Kennedy Onassis, que estava editando o catálogo de uma exposição de trajes russos no Museu Metropolitano de Arte de Nova York. Jackie ficou perturbando os nababos culturais soviéticos para que enviassem pelo menos um item dos trajes do czar Nicolau e da czarina Alexandra. Eles recusaram. A explicação que obtivemos foi de que o assassinato do czar e de sua esposa e filhos era o único pecado de Lenin, e que o envio de um vestido ou de um traje militar relembraria ao mundo esse pecado. Jackie argumentou que se sentiria melhor se pudéssemos ter para a mostra a maravilhosa capa que a princesa Elisabeth usava em seus passeios de inverno. Perdão, ela sumiu. Jackie insistiu em que a capa ainda devia estar por lá - ela sabia. Não, ela sumiu. Jackie fez a expressão certa de descontentamento. Meus colegas russos encolheram-se de medo e eu sabia que eles tinham de dar algo importante em troca da recusa.
Poucos dias depois, no Hermitage, fomos chamados pelo curador de trajes e pelo representante do Partido Comunista no museu para ir a "um lugar onde raramente alguém foi". Quando eu e Jackie chegamos a uma enorme porta no meio de uma galeria, o curador nos disse: "Por razões de segurança, pedimos que fechem os olhos e nós os conduziremos."
Atendemos.
Depois de descermos um pequeno lance de escada e atravessarmos outra porta, disseram-nos para parar e abrir os olhos, e ali estávamos em completa escuridão.
De repente, acendeu-se um conjunto de refletores e lá estava um trenó de aço de maravilhoso design barroco - do tamanho de um fusca - , estofado de um lindo veludo verde, com uma luxuosa capa verde de seda e veludo com arremate de arminho estendida sobre o assento dianteiro. Era a capa de inverno da princesa Elisabeth. Ela tinha o costume de inundar os halls do Hermitage durante o inverno e abrir as janelas para poder patinar e andar de trenó. Nossos colegas russos disseram que haviam "encontrado" tanto a capa desaparecida quanto o trenó e garantiram que poderíamos levar ambos para a exposição - e que aqueles objetos eram muito melhores do que qualquer traje que Nicolau e Alexandra jamais possuíram."
Thomas Hoving, ex-diretor do Metropolitan Museum of Art, New York - "Arte para Dummies" - Editora Campus - 2000
Escrito por Ana Bolena às 21h10
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